A 325 metros de altura na Amazônia, cientistas encontram vida dentro da névoa

Cientistas descobrem “elevador invisível” que transporta vida pela Amazônia Um estudo conduzido no Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO) revelou...

A 325 metros de altura na Amazônia, cientistas encontram vida dentro da névoa
A 325 metros de altura na Amazônia, cientistas encontram vida dentro da névoa (Foto: Reprodução)

Cientistas descobrem “elevador invisível” que transporta vida pela Amazônia Um estudo conduzido no Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO) revelou que o nevoeiro formado sobre a vegetação atua como um mecanismo natural de transporte de microrganismos. Esse processo, segundo os cientistas, contribui diretamente para a regeneração e o funcionamento do ecossistema. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp A pesquisa, que ganhou destaque internacional após publicação na renomada revista científica Nature, foi realizada em uma área preservada a cerca de 150 quilômetros de Manaus (AM). Conhecida como pristine, termo utilizado para descrever uma região considerada intocada, o local atua como uma área protegida. O trabalho, feito em cooperação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros, identificou que as gotículas da névoa carregam bactérias e fungos desde o solo até as camadas mais altas da atmosfera, permitindo a dispersão por diferentes regiões da floresta. Fenômeno presente em n[evo da Amazônia surpreende pesquisadores Bruna Sebben O projeto foi motivado após Bruna Sebben, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), identificar a presença de microrganismos na torre de pesquisa. Como a copa das árvores atinge aproximadamente 40 metros de altura e a torre (ATTO) chega a 325 metros, a descoberta acendeu uma dúvida nos cientistas sobre como esses indivíduos, presentes no solo e nas plantas, chegavam tão alto. Com base na coleta feita por um amostrador de névoa — dispositivo capaz de capturar gotículas de água da nuvem —, a equipe identificou que o nevoeiro era o vetor de transporte. As amostras foram coletadas ao longo de mais de um ano e analisadas em parceria com o Instituto Butantan. Foram identificados oito tipos de bactérias e sete tipos de fungos presentes no material. "Encontrar organismos vivos (na névoa) nos fez pensar na importância ecológica que essa nuvem tem. Esses fungos e bactérias são essenciais, pois devolvem nutrientes à floresta, então percebemos que o nevoeiro ajuda no processo de dispersão destes microrganismos", afirma Bruna. Veja mais do Terra da Gente: A poda estimula o crescimento e a saúde das plantas? Veja o que a ciência diz Avistar 2026: encontro de observação de aves celebra 20 anos em SP e recebe 2ª edição do Fórum Observai Hora do Rancho: aprenda a fazer cuca de abacaxi; sobremesa saborosa Torre passa dos 320 metros de altura na Amazônia Bruna Sebben O "elevador" natural O professor da UFPR Ricardo Godói, líder da pesquisa, explica que o ambiente oferece condições ideais para observar processos naturais sem interferência humana significativa. Segundo ele, o nevoeiro se origina próximo ao solo, atravessa a vegetação e sobe pela coluna atmosférica antes de se dissipar. "Imaginei que o nevoeiro poderia funcionar como um elevador, transportando partículas do solo para camadas mais altas da atmosfera", diz o pesquisador. Imagem do equipamento utilizado na pesquisa Bruna Sebben Papel na regeneração Na Amazônia, a decomposição de matéria orgânica ocorre de forma acelerada, impulsionada pela ação de microrganismos que degradam resíduos vegetais e reciclam nutrientes. Conforme o estudo, o transporte promovido pelo nevoeiro ajuda a distribuir esses organismos de forma mais homogênea pela floresta, favorecendo a regeneração e a manutenção do equilíbrio ecológico. "Na Amazônia, árvores enormes que caem no chão somem em dois anos devido à altíssima atividade microbiana que degrada a celulose e revigora a floresta", detalha Ricardo. Sem esse mecanismo de dispersão, os microrganismos tenderiam a permanecer restritos a áreas específicas. Além da regeneração, o fenômeno também pode influenciar processos atmosféricos, como a formação de nuvens e chuvas, já que as partículas biológicas podem atuar como núcleos de condensação. Névoa registrada na Amazônia Bruna Sebben Ameaças ao ciclo natural O funcionamento desse sistema depende diretamente das condições ambientais da floresta, uma vez que a formação do nevoeiro está associada à alta umidade e à diferença de temperatura entre o solo e o ar. Para o pesquisador, atividades antrópicas, como desmatamento e queimadas, podem alterar essas condições e comprometer o ciclo. "Em áreas degradadas, esse processo tende a ser interrompido, o que pode afetar a distribuição de microrganismos e, consequentemente, o funcionamento completo do ecossistema", finaliza. Local da pesquisa Bruna Sebben *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente