Antes de pedir socorro para esposa baleada, tenente-coronel fez pelo menos 8 ligações; veja com quem ele falou
Caso Gisele: provas vão contra versão apresentada por Geraldo Neto Antes de pedir socorro para a esposa baleada, o tenente-coronel Geraldo Neto fez ligações...
Caso Gisele: provas vão contra versão apresentada por Geraldo Neto Antes de pedir socorro para a esposa baleada, o tenente-coronel Geraldo Neto fez ligações ao menos oito ligações, entre elas para um superior hierárquico e um desembargador, segundo relatório da Corregedoria da Polícia Militar. A soldado Gisele Santana foi encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal vivia, no Brás, na região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. As informações constam em relatório da Corregedoria da Polícia Militar obtido pela TV Globo com base na perícia feita no celular do oficial, que foi apreendido durante a investigação. Geraldo Neto foi preso preventivamente na quarta-feira (18) e indiciado por feminicídio e fraude processual. Inicialmente, ele afirmou que a esposa havia se suicidado após uma discussão, mas a versão foi descartada após laudos apontarem feminicídio. De acordo com o relatório, a primeira ligação foi feita às 7h54min58s para o 190, mas ele não aguardou o atendimento. Na sequência, tentou contato duas vezes com um coronel, seu superior, mas não foi atendido. Em seguida, voltou a ligar para o 190 — a chamada foi atendida, mas durou apenas cinco segundos. Depois disso, o tenente-coronel conseguiu falar com o superior por cerca de um minuto. Somente às 7h57min17s ele fez uma nova ligação ao 190, quando pediu socorro. A chamada durou 3 minutos e 12 segundos. Minutos depois, ele ligou para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan e conversou por 25 segundos. Segundo o coronel Alex Asaka, comandante da Corregedoria da PM, o magistrado não interferiu na cena do crime e atuou apenas como amigo. Veja a sequência das ligações feitas pelo tenente-coronel: 7h54min58s: ligação para o 190, sem aguardar atendimento; 7h55min25s: tentativa de contato com o superior, recusada; 7h55min39s: nova tentativa com o superior, não atendida; 7h55min47s: ligação para o 190, atendida, com duração de 5 segundos; 7h56min03s: ligação com o superior, duração de 58 segundos; 7h57min17s: ligação ao 190 para pedir socorro, com duração de 3 minutos e 12 segundos; 8h01min03s: ligação para o desembargador, com duração de 25 segundos; 8h05min38s: ligação ao 193, com duração de 1 minuto e 33 segundos. O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido da policial militar Gisele Alves Santana. Reprodução/TV Globo Mensagens misóginas Ao extrair as mensagens do celular do tenente-coronel, a Corregedoria encontrou mensagens misóginas que demonstravam controle do oficial sobre a esposa. Nas conversas com o marido, Gisele afirma que era submetida a episódios de humilhação, piadas e comportamento “babaca” por parte do marido, até no ambiente de trabalho na PM -- ele aparecia na seção em que a soldado trabalhava e ficava horas observando o trabalho dela. Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo teria que mudar o comportamento “babaca” e “sem escrúpulos”. “Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico, e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a PM. Imagens mostram o tenente-coronel Geraldo Neto preso pela morte da mulher “Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”, afirmou. Gisele Alves Santana também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse. LEIA MAIS: Tenente-coronel acusado de matar esposa dizia ser 'macho alfa' e cobrava que ela fosse 'fêmea beta obediente e submissa'; veja mensagens Trajetória da bala, cena montada e ferimentos no pescoço levaram polícia a apontar feminicídio na morte da soldado da PM em SP De queixa de ciúmes a pedido de prisão do marido: veja cronologia do caso de PM morta com tiro na cabeça Em outras mensagens, segundo a investigação, Geraldo Neto faz declarações machistas contra a esposa: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”, declarou. Para a Corregedoria da PM - que pediu a prisão do tenente-coronel - os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico”. “Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, disse a investigação. Na visão dos investigadores da PM, “antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”. Mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa PM Gisele Alves Santana. Reprodução/TV Globo "O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados", disseram os policiais corregedores que investigam o caso. O que diz a defesa do acusado Por meio de nota, o escritório Malavasi Sociedade de Advogados, que representa Geraldo Neto, disse que "seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade". "A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel", declarou. Os advogados também afirmam que o "recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições". A defesa também afirmou que ao saber dos pedidos de prisão em desfavor de Geraldo Neto, "desde 17 de março, o escritório "não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes". Eles também afirmam que ajuizaram reclamação perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, "contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital". Prisão em São José dos Campos Veja o momento que tenente-coronel deixa condomínio com policiais no interior de SP A Justiça Militar decretou na terça-feira (17) a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Neto. Ele foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar (PM) em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira (18). Por meio de nota, a defesa do oficial reagiu à prisão de seu cliente alegando que ela não poderia ter sido feita pela Justiça Militar. "A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares", disse o advogado Eugênio Malavasi, que defende Geraldo. O criminalista vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum. A Corregedoria da PM pediu a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (ter adulterado a cena do crime). Coronel Geraldo Neto (ao centro) é preso pela Corregedoria da PM por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Reprodução/TV Globo Laudos apontam feminicídio Tenente-coronel Geraldo Neto é preso nesta manhã em São José dos Campos A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo aconteceu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios que constam em dois dos 24 laudos foram determinantes para isso: Trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima; Profundidade dos ferimentos encontrados. Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32. Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação porque havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado. Veja abaixo a importância de cada um deles para a investigação: Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça; Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça; Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, até mesmo complementares, como o necroscópico; Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada; Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo; De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio _segundo peritos, o mais provável é que ela largasse a pistola. Laudo mostra que PM morta em São Paulo tinha ferimentos no rosto e no pescoço Outros pontos que chamaram a atenção: O fato de o coronel ter telefonado para a PM, para pedir socorro, apenas 29 minutos minutos após uma vizinha escutar um tiro; O coronel havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco; Somente após ter ligado para um desembargador amigo dele, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo inclusive orientação de policiais militares que estavam no local. Câmeras de segurança gravaram o encontro do coronel com o desembargador (veja vídeo nessa reportagem); Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento. A perícia usou o luminol equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz para achar as gotas de sangue; Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa; Sexológico: constatou que ela não estava grávida; Reconstituição: conhecido tecnicamente como reprodução simulada, ele apresentará por meio de fotos as versões que Geraldo e testemunhas deram para o que ocorreu. Ainda não ficou pronto. Caso da PM morta em São Paulo. Fantástico Amigo de tenente-coronel, desembargador não interferiu em cena do crime, diz corregedor da PM