Carlinhos de Jesus fala de luta contra doença autoimune e revela que quase desistiu da dança

Carlinhos de Jesus celebra recuperação de doença autoimune Um dos maiores nomes da dança no Brasil, o dançarino e coreógrafo Carlinhos de Jesus pensou em ...

Carlinhos de Jesus fala de luta contra doença autoimune e revela que quase desistiu da dança
Carlinhos de Jesus fala de luta contra doença autoimune e revela que quase desistiu da dança (Foto: Reprodução)

Carlinhos de Jesus celebra recuperação de doença autoimune Um dos maiores nomes da dança no Brasil, o dançarino e coreógrafo Carlinhos de Jesus pensou em deixar a carreira na dança durante o tratamento de uma neuroradiculopatia desmielinizante inflamatória crônica. A doença autoimune o deixou sem os movimentos das pernas por meses. Em entrevista a TV Tribuna, afiliada da Globo, ele disse que teve a ideia de atuar como pedagogo e motorista de aplicativo durante a internação, por causa da doença, onde precisou tomar morfina por mais de 10 dias (veja detalhes do tratamento abaixo). “Numa das madrugadas que eu não conseguia dormir, eu fiquei pensando: ‘bom, eu sou pedagogo por formação, então vou distribuir currículos meus próximo à minha residência’”, disse em entrevista à TV Tribuna, afiliada da Globo. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. Carlinhos contou ter pensado em trabalhar em uma escola e, no tempo livre, ser motorista de aplicativo. O dançarino, porém, se recuperou e jamais abandonou a dança. Ele, inclusive, esteve em Santos, no litoral de São Paulo, para uma oficina de samba no Centro de Cultura Patrícia Galvão. O jurado do quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Huck, contou ao apresentador Rodrigo Nardelli que foi difícil receber o diagnóstico da doença, mas é grato pelo tratamento que lhe permitiu uma recuperação antes do previsto. “Eu acho que a gente tem que mostrar para as pessoas o que é dançar e não uma sequência coreográfica. É mostrar e ela entender, e o corpo entender aquele movimento. Isso é muito importante”, afirmou, em entrevista à TV Tribuna, afiliada da Globo. Ele ainda disse que enfrentou o maior desafio de sua vida anos atrás, quando perdeu o filho assassinado no Rio de Janeiro. “Não existe dor maior do que essa”, lamentou. Carlinhos de Jesus esteve em Santos para oficina de samba Reprodução/TV Tribuna Confira a entrevista: O que é dançar? Dançar é expressar com o corpo um sentimento, ou a expressão sem a palavra. Você diz, você fala, sem usar a boca, a frase, o som. É o movimento que te transmite o entendimento da mensagem, da emoção. E acho que a dança é escrever com o corpo o movimento e a emoção que você sente no momento, através do movimento. Você falou de samba, a gente tem como lembrar de você na Sapucaí, lá no Rio de Janeiro, nesse Carnaval. Aliás, foi um momento diferente por causa da questão da saúde que você vem enfrentando e lutando também há alguns meses já. Eu voltei para Sapucaí agora, foi um momento muito difícil para mim. Difícil não, de muita emoção, porque imagina que aquela pista ali é a minha vida durante um bom tempo. E, dessa vez eu estava com uma movingjet, uma cadeira motorizada. Eu passando na avenida e o povo me reconhecendo e mandando um aplauso, uma energia muito boa. Foi meu retorno depois de cinco anos. Eu volto para Sapucaí e espero o ano que vem estar de volta sem a cadeira motorizada. Carlinhos de Jesus na Sapucaí AgNews Aliás, como é que está sendo esse tratamento que você vem fazendo? Essa experiência também, porque apesar das limitações que a doença às vezes acaba impondo, você está conseguindo, de certa forma, conviver com ela, ou em alguns momentos, até driblar, se é que a gente pode dizer assim. Exatamente. Durante a minha internação, fiquei 15 dias internado. Desses 15 dias, 12 dias à base de morfina, tamanha a dor que eu sentia. E a minha falta de mobilidade no leito, eu comecei a pensar, numa das madrugadas que eu não conseguia dormir, eu fiquei pensando: ‘Bom, eu sou pedagogo por formação, então vou distribuir currículos meus, próximo à minha residência, vou trabalhar das 8h às13h da tarde numa escola, vou em casa, almoço, pego meu carro adaptado. Eu tenho um carro bom, é só adaptar, e vou fazer Uber. Juro você que eu pensei. Em casa é que eu não vou ficar lamentando a minha falta de mobilidade. Então, eu acho que a cabeça é muito importante nesse momento. Foi difícil para mim aceitar o diagnóstico. Eu tenho uma neuroradiculopatia desmielinizante inflamatória crônica. É uma doença neurológica que dá em qualquer um. Qualquer pessoa de 5, 10, 15, 20 anos, 25 ou 30. Dentro do pior, eu ainda tive sorte. Deus foi bom comigo que deixou eu, com 73 anos, ter isso. Se eu tivesse isso com 20, eu não estarei aqui hoje, eu não seria o Carlinhos de Jesus. Então, eu acho que me acostumar a isso, entender esse problema é fundamental para qualquer pessoa, entender a sua neuropatia, o seu problema, e conviver com ele. O importante é você ter qualidade de vida. Se você vai viver andando ou numa cadeira de rodas, isso é o de menos. O importante é que você viva bem. E estar bem é estar bem saudável com a vida e seguir aquilo que a vida te deu, né? A vida me deu esse problema. E no que era 1 ano e 7 meses para eu me levantar da cadeira, eu me levantei 7 meses. E esse levantar da cadeira foi no Domingão com Huck? Foi. Dentro da Dança dos Famosos do ano passado, eu estava entrando de cadeira de rodas e isso me incomodava muito. Eu disse que antes de acabar a Dança dos Famosos, eu quero estar de pé. Claro que eu estava de pé aí, mas totalmente dependendo de uma cadeira para andar em distâncias muito longas ou a bengala. Mas, eu estava de pé, eu consegui estar de pé. Isso eu devo a ciência, eu devo a imunoglobulina humana que eu tomo uma vez por mês e a fisioterapia, um trabalho maravilhoso da fisioterapia com José Vicente Martins, que é um craque e é um cara muito competente. Eu faço muito essa fisioterapia seca, digamos, e a fisioterapia aquática, que são atividades fundamentais para minha recuperação. Carlinhos de Jesus de muletas @alvimfotografia/Divulgação E dança ficou onde nesse período? A dança ficou me acompanhando o tempo todo, né? Enquanto estava no hospital, eu tinha um trabalho, um compromisso com um festival, o maior festival do mundo é brasileiro. Eu digo isso com o maior orgulho e todos nós brasileiros devemos ter orgulho disso. O maior festival de dança do mundo é brasileiro e é em Joinville (SP), o Festival de Dança de Joinville. E eu tinha esse compromisso contratual já com aquele trâmite todo de 50% já pago e tal. Eu e minha mulher discutindo isso, porque ela é minha agente, ela que cuida da minha agenda e ela me acompanhou o tempo todo no leito. E eu dizia para ela: “não vou poder fazer Joinville". E ela liga para Joinville, que diz o seguinte: "Olha, ele só não vem se ele não quiser, porque nós queremos a presença dele, porque ele é uma diferença. Ele é uma autoridade na dança e ele, na cadeira de rodas ou em pé, a gente quer ele de qualquer maneira, só se ele não quiser”. A dança mais uma vez, foi o meu suporte, além da minha família, claro, da medicina e dos amigos, mas o que me levantou de eu dizer: "poxa, tudo bem que eu sou pedagogo, tudo bem que eu vou fazer Uber, mas a dança ainda me quer". Tem o maior festival de dança dizendo para que eu só não iria se não quisesse. Eu digo: "É claro que eu vou, né?". E é claro que a gente fez uma campanha de divulgação, porque eu ia entrar de cadeira de rodas, não iam entender nada, Carlinhos de Jesus uma cadeira de roda num festival de dança. A dança foi e é e será sempre o meu suporte. Eu perdi um filho brutalmente assassinado no Rio de Janeiro e não existe dor maior do que essa, do que você perder um filho. E eu consegui superar isso, sabe? Me levantei moralmente e segui minha vida. Eu digo, se eu conseguir com a maior dor da minha vida, por que que eu não vou conseguir agora? Então, isso foi um grande impulso e a dança certamente me acompanhou nesse tempo todo. VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos