'Colar de pérolas' em aranha revela nova espécie de parasita inédita no Brasil

'Colar de pérolas' em aranha revela nova espécie de parasita inédita no Brasil Nos corredores silenciosos do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instit...

'Colar de pérolas' em aranha revela nova espécie de parasita inédita no Brasil
'Colar de pérolas' em aranha revela nova espécie de parasita inédita no Brasil (Foto: Reprodução)

'Colar de pérolas' em aranha revela nova espécie de parasita inédita no Brasil Nos corredores silenciosos do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, em São Paulo, o tempo costuma guardar segredos sob vidros de conservação. Foi em uma dessas prateleiras, entre aranhas coletadas há anos no Rio de Janeiro, que pesquisadores avistaram algo que desafiava a anatomia comum: um delicado e minúsculo "colar de pérolas" decorando o corpo de uma aranha juvenil. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp O que poderia ser confundido com um resíduo natural revelou-se, sob as lentes do microscópio, uma descoberta científica de impacto internacional. Trata-se do segundo registro de ácaros parasitas de aranhas no Brasil em mais de 40 anos e a descrição de uma espécie inédita para a ciência, batizada de Araneothrombium brasiliensis. Aranha com ácaro parasita foramando "colar de pérolas" Ricardo Bassini-Silva / Instituto Butantan Veja mais notícias do Terra da Gente: INTERESSANTE: Por que o Teiú fica mais quente na hora da 'paquera'? Pesquisa encontra dado inédito VÍDEO: Onça-parda é filmada caminhando por campus da Unesp no interior de SP PERIGO? Jiboia e sapo são flagrados dividindo a mesma toca na Caatinga; veja vídeo O despertar de um segredo A descoberta, publicada no periódico International Journal of Acarology, nasceu da curiosidade e do olhar atento. Ao notarem os pequenos pontos esféricos fixos no cefalotórax (a região da cabeça) das aranhas, os especialistas buscaram o auxílio de Ricardo Bassini-Silva, curador da Coleção Acarológica do Butantan. "Até então, havia apenas um registro de ácaros parasitas de aranhas no Brasil, e ainda assim pertencente a outra família", explica Bassini-Silva à agência Fapesp. O tal "colar" era, na verdade, um grupo de larvas de ácaros ingurgitadas — ou seja, alimentadas com a linfa (o "sangue" dos artrópodes) até atingirem o limite de seu volume. Com apenas 0,5 milímetro cada, esses pequenos "caroneiros" escolheram o ponto mais vulnerável de suas hospedeiras: o pedicelo, a estreita conexão entre a cabeça e o abdômen da aranha, onde a carapaça é mais fina e fácil de penetrar. Fachada do Instituto Butantan na Zona Oeste de SP Suamy Beydoun/Estadão Conteúdo Estratégia de sobrevivência A biologia do Araneothrombium brasiliensis é um exemplo da resiliência e adaptação da natureza. Os pesquisadores explicam que o parasitismo é apenas uma fase da vida desses animais: Fase Larval: O ácaro age como um parasita oportunista, fixando-se em aranhas jovens para se alimentar e se deslocar. Fase Adulta: Ao atingirem a maturidade, eles abandonam o hospedeiro e passam a viver no solo. Nessa etapa, tornam-se predadores de vida livre, alimentando-se de pequenos insetos e outros ácaros. Essa dualidade torna a espécie difícil de ser encontrada na natureza, o que reforça o papel fundamental dos acervos de pesquisa. "As aranhas analisadas estavam armazenadas havia anos. As coleções guardam descobertas invisíveis", afirmam os autores do estudo. Visão da nova espécie de ácaro Ricardo Bassini-Silva / Instituto Butantan Mapa da Biodiversidade Antes deste trabalho, o gênero Araneothrombium era conhecido apenas na Costa Rica, em um registro feito em 2017. A confirmação de sua presença em Pinheiral (RJ), em ambiente próximo a cavernas e grutas, coloca o Brasil na rota neotropical deste grupo e acende um alerta para a vasta biodiversidade ainda não catalogada. Com mais de 3 mil espécies de aranhas habitando o território nacional, os cientistas acreditam que este é apenas o começo. O "colar" encontrado no Butantan é um lembrete de que, na natureza, até o que parece um adorno pode ser uma complexa estratégia de sobrevivência — e que o Brasil ainda guarda muitos segredos sob o olhar minucioso da ciência. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente