Como as cores das borboletas estão sendo 'apagadas' na Mata Atlântica; entenda

Pinus estão 'transformando' borboletas coloridas em tons de cinza na Mata Atlântica As cores das borboletas são parte da linguagem da floresta. Em cada batid...

Como as cores das borboletas estão sendo 'apagadas' na Mata Atlântica; entenda
Como as cores das borboletas estão sendo 'apagadas' na Mata Atlântica; entenda (Foto: Reprodução)

Pinus estão 'transformando' borboletas coloridas em tons de cinza na Mata Atlântica As cores das borboletas são parte da linguagem da floresta. Em cada batida de asas, tons metálicos, manchas contrastantes e desenhos delicados cumprem funções essenciais para a sobrevivência desses insetos. Mas, em áreas dominadas por monoculturas de pinus, essa paleta vibrante está desaparecendo. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) revela que plantações de pinus — frequentemente chamadas por ambientalistas de “desertos verdes” — estão simplificando as cores das borboletas na Mata Atlântica. O resultado é uma paisagem biologicamente empobrecida, onde predominam insetos de tons opacos, como marrom e cinza, enquanto espécies mais coloridas se tornam raras ou desaparecem. A pesquisa foi realizada na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha, e analisou 5.855 indivíduos de 47 espécies de borboletas frugívoras pertencentes à família Nymphalidae. Os resultados foram publicados na revista científica Biodiversity and Conservation. Borboleta-99 (Diaethria candrena) Pesquisadores / divulgação Veja mais do Terra da Gente: INVISÍVEL: Vídeo em câmera lenta revela 'segredo' da abelha-das-orquídeas VÍDEO: Cobra-verde é flagrada predando morcego em sítio no interior de SP FOTOS: Cobra camuflada captura e engole pássaro em flagrante na mata; veja imagens De acordo com o estudante de biologia André Nogueira Thomas, primeiro autor do estudo, a substituição da mata nativa por plantações homogêneas funciona como um filtro ecológico que seleciona quais espécies conseguem sobreviver. “Nas áreas de pinus, as pessoas tendem a encontrar mais borboletas com tons marrons e cinzas, além de padrões de cores mais simples”, explica o pesquisador. “Borboletas mais coloridas até podem aparecer ocasionalmente, mas em quantidade muito menor do que em áreas bem conservadas.” André é estudante do último semestre de Ciências Biológicas na UFRGS e desenvolve pesquisas desde o início da graduação no Laboratório de Ecologia de Interações, orientado pelo professor Milton Mendonça e coorientado pelo pesquisador Cristiano Iserhard. Seu trabalho já rendeu artigos científicos e o Prêmio Jovem Pesquisador da UFRGS na área de Ciências Biológicas. Curiosamente, o interesse pelas cores começou antes mesmo da biologia. “Eu trabalhei com coloração em artes gráficas e mídia impressa em um curso de Jovem Aprendiz no SENAI. Quando entrei na biologia e percebi que as cores também têm funções ecológicas fundamentais, o tema me encantou desde o primeiro momento”, conta. Quando a cor é questão de sobrevivência Borboleta Zaretis strigosus, com alta capacidade de camuflagem Pesquisadores / divulgação Para uma borboleta, cor não é apenas estética. Os padrões presentes nas asas ajudam a regular a temperatura do corpo, atrair parceiros reprodutivos e evitar predadores. Algumas espécies usam tons vibrantes para indicar toxicidade, enquanto outras recorrem à camuflagem para se esconder na vegetação. Mas quando esses insetos entram em ambientes dominados por pinus, essa estratégia evolutiva pode se voltar contra eles. “Uma borboleta colorida, ao entrar em um ambiente diferente daquele ao qual está adaptada, pode chamar atenção demais de predadores”, explica André. “Além disso, mudanças no microclima — como temperatura e umidade — e a ausência das plantas hospedeiras onde colocam seus ovos dificultam a sobrevivência.” Segundo os pesquisadores, isso explica por que ambientes com monoculturas acabam sendo dominados por espécies generalistas, capazes de sobreviver em condições mais simples e abertas. Mesmo assim, essa adaptação tem um custo: a perda de diversidade ecológica. “Mais do que simplesmente ter espécies presentes no ambiente, é importante que elas possam exercer seus papéis ecológicos e interagir entre si. Quando a diversidade diminui, essas interações também desaparecem”, diz o pesquisador. O mistério dos 70 anos Borboletas Hamadryas Pesquisadores / divulgação Um dos resultados mais preocupantes do estudo foi perceber que o impacto da silvicultura pode durar décadas. Os cientistas compararam áreas de pinus jovens, com cerca de 25 anos, e plantações mais antigas, com até 70 anos de idade. A expectativa era que, com o tempo, a regeneração natural da vegetação permitisse o retorno de parte da biodiversidade. Isso não aconteceu. “A mata nativa tem um processo natural de recuperação chamado sucessão florestal”, explica André. “Mas o pinus é diferente do desmatamento tradicional. Ele possui características invasoras e libera substâncias químicas no solo que impedem o crescimento de outras plantas.” Esse processo, conhecido como alelopatia, dificulta a regeneração da flora nativa. Como consequência, o ambiente continua semelhante ao início do plantio mesmo décadas depois. Além disso, a estrutura dessas plantações também altera profundamente o microclima da floresta. “As copas do pinus são mais abertas e deixam entrar mais luz. Há mais espaço entre as árvores e menos vegetação no sub-bosque. Isso cria condições muito diferentes das encontradas em uma floresta de Mata Atlântica.” Para muitas espécies, o ambiente simplesmente deixa de ser habitável. A perda invisível da biodiversidade Borboleta com alta capacidade de camuflagem em áres de monocultura Pesquisadores / divulgação Os resultados do estudo também revelaram que áreas de floresta nativa possuem uma grande variedade de padrões de cores — desde tons extremamente contrastantes até colorações adaptadas a ambientes mais escuros do sub-bosque. Já nas áreas de pinus, essa diversidade desaparece. “O pinus atua como um filtro ecológico sobre as cores das borboletas”, explica André. “Espécies com determinados padrões simplesmente não sobrevivem ali.” Essa perda vai muito além da estética. As cores desempenham papéis fundamentais na ecologia desses insetos, influenciando desde a camuflagem até a comunicação entre indivíduos. “Quando perdemos essas cores, perdemos também funções ecológicas importantes.” O verdadeiro significado de um “deserto verde” Plantação de pinus CNA/Wenderson Araujo/Trilux - Agência Brasil O termo “deserto verde” é frequentemente usado por ambientalistas para descrever grandes plantações homogêneas de árvores exóticas. Embora essas áreas pareçam verdes à primeira vista, muitas vezes abrigam pouca biodiversidade. No caso das borboletas, isso pode afetar toda a cadeia alimentar. “Muitas das espécies mais coloridas acabam sendo predadas rapidamente quando entram nesses ambientes”, explica o pesquisador. “Por outro lado, alguns predadores especializados também deixam de ocorrer ali.” O resultado é um sistema ecológico simplificado. “Não há recursos, não há presas, não há predadores e não há interações. É daí que vem a ideia de deserto verde.” Segundo André, a perda de cores observada nas borboletas pode servir como um importante indicador ambiental. “Diversos estudos com outros organismos — como libélulas, peixes e até corais — mostram um padrão semelhante. As ações humanas estão reduzindo a diversidade de cores na natureza.” Essa mudança pode ser monitorada por meio de fotografias e análises digitais das asas dos insetos, uma metodologia que os pesquisadores acreditam ser promissora para o monitoramento ambiental. “Estamos reduzindo a paleta de cores da natureza”, afirma o pesquisador. “E isso vai muito além da estética.” Para ele, a degradação dos ecossistemas está diretamente ligada à qualidade de vida humana. “Ecossistemas degradados significam mais epidemias, mais desastres socioambientais e menos qualidade de vida para as pessoas.” Ciência e decisões ambientais O pesquisador também demonstra preocupação com decisões políticas que podem flexibilizar o licenciamento ambiental para atividades de silvicultura. “É preocupante ver decisões caminhando contra uma infinidade de estudos científicos sérios que mostram o impacto dessas práticas”, afirma. Segundo ele, o objetivo das pesquisas não é demonizar o plantio de árvores. “Ninguém quer demonizar uma espécie ou a silvicultura. Pelo contrário. Os estudos buscam orientar essas atividades para que sejam mais sustentáveis, utilizando espécies nativas e reduzindo impactos ambientais.” Enquanto isso, os pesquisadores continuam investigando como as ações humanas influenciam as cores da biodiversidade. O próximo passo da equipe é estudar como a urbanização de Porto Alegre está afetando a coloração de insetos. “Algo mágico nas cores é o seu apelo estético”, diz André. “Por um lado, é triste observar a descoloração da natureza. Por outro, isso nos permite mostrar de forma visual e impactante como nossas ações estão transformando os ecossistemas.” E, no silêncio da floresta, cada borboleta que desaparece leva consigo um pequeno fragmento da paleta da vida. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente