Como estão pacientes lesados em mutirão de cirurgia de cataratas um ano após denúncias no interior de SP

Como estão pacientes atendidos em mutirão de cataratas um ano após caso vir à tona Visão funcional, transplante de córnea, perda do globo ocular e até um...

Como estão pacientes lesados em mutirão de cirurgia de cataratas um ano após denúncias no interior de SP
Como estão pacientes lesados em mutirão de cirurgia de cataratas um ano após denúncias no interior de SP (Foto: Reprodução)

Como estão pacientes atendidos em mutirão de cataratas um ano após caso vir à tona Visão funcional, transplante de córnea, perda do globo ocular e até uma nova cirurgia. Um ano após a repercussão do caso dos 13 pacientes que perderam a visão em um mutirão de cirurgias de catarata no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) em Taquaritinga (SP), a evolução de cada um deles é diferente e todos seguem em acompanhamento especializado. Em comum, eles compartilham o sentimento de frustração. Muitos também desenvolveram quadros de ansiedade e depressão, uma vez que a falta da visão levou a perda da autonomia. Um deles morreu em 2025, em decorrência de um câncer. O g1 entrou em contato com pelo menos cinco pacientes, mas todos optaram por não se pronunciar, por considerar que falar do assunto ainda é doloroso. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp O caso aconteceu em outubro de 2024, durante um mutirão de cataratas realizado no AME de Taquaritinga, mantido pelo governo de São Paulo e administrado por uma Organização Social de Saúde (OSS). As denúncias surgiram em fevereiro de 2025. Nas investigações, o Grupo Santa Casa de Franca (SP), que era a OSS responsável pelo AME, confirmou ter constatado que, na hora de fechar o corte da cirurgia, em vez de um soro de hidratação, os profissionais utilizaram uma substância que serve para assepsia superficial de pele, mas não pode entrar em contato com os olhos. LEIA TAMBÉM Pacientes ficam cegos após serem operados em mutirão de catarata no AME de Taquaritinga Equipe trocou soro por substância de limpeza, diz Grupo Santa Casa Justiça condena estado e Santa Casa de Franca a pagar R$ 1 milhão Danos na córnea, inflamação e chances de reversão: o que exames no HC revelam sobre os pacientes que ficaram cegos em mutirão de catarata Acompanhamento especializado Há um ano, os pacientes são acompanhados pelo médico oftalmologista André Messias, coordenador da Divisão de Oftalmologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP/USP) e chefe dos transplantes de córnea. "Seis deles evoluíram bem, três intermediários, e tivemos quatro com evolução ruim. A primeira da evolução ruim é uma paciente que não aceitou tratamento nenhum, mas continuou em seguimento. Ela tem os problemas da córnea e não tem percepção luminosa, não tem visão nesse olho. Os outros três [da evolução ruim] perderam o globo ocular". Os seis pacientes que tiveram boa evolução do caso passaram por transplante de córnea e recuperaram parcialmente a visão, segundo o médico. "Eles têm acuidade visual, uma visão parcialmente funcional. Não é uma visão que eles conseguem ler ou ver detalhes, mas eles têm uma visão funcional. O que é a visão funcional? Você já foi no oftalmologista, viu aquela tabelona lá na frente? É aquela primeira letrona grandona lá em cima. É alguma visão. O que a gente pode falar é que eles têm uma visão e essa visão não é zero". MP investiga por que 12 pessoas ficaram cegas ou com sequelas após mutirão de catarata Reprodução/TV Globo Dois dos três pacientes que tiveram evolução intermediária receberam transplante de córnea, mas o enxerto não funcionou. "A córnea nova também precisa de um ambiente saudável para conseguir aderir ao olho. E como essas câmaras anteriores estavam muito desorganizadas, o olho não conseguiu nutrir a córnea nova. Então, esses olhos, a gente teve de recobrir com a própria conjuntiva do olho. Esses olhos não têm a visão funcional, mas o globo ocular está preservado". Dos três pacientes que tiveram evolução ruim, um optou por passar por cirurgia em Araraquara (SP), onde foi feita a remoção do olho. "Os outros dois, fizemos a cirurgia aqui [no HC] e eles estão com uma prótese orbitária para não ter aquela aparência da ausência do olho, da órbita vazia". Em nota encaminhada ao g1, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) informou que os pacientes permanecem sob cuidados de equipe especializada no HC. A OSS Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Faepa) assumiu o gerenciamento do AME Taquaritinga. O contrato de gestão foi firmado em junho de 2025. Pacientes relataram que perderam a visão em mutirão de cataratas no AME Taquaritinga em outubro de 2024 Reprodução/EPTV Indenizações e pensões vitalícias Todos os pacientes que perderam a visão total ou parcialmente no mutirão foram indenizados e recebem pensão de um a dois salários mínimos (dependendo da gravidade do caso). Em nota encaminhada ao g1, a Procuradoria Geral do Estado de São Paulo informou que as 13 vítimas já tiveram deferidos os pedidos e os autos foram encaminhados à Secretaria da Saúde para apuração de responsabilidades.  Ao g1, a advogada Marília Natália da Silva, que representa cinco pacientes disse que os processos foram homologados no último trimestre de 2025. "Não existe valor que você pode fixar com relação à visão, audição, à mobilidade da pessoa. A gente fala 'quanto vale sua visão?' Não tem. Mas a gente precisa ter um parâmetro e, dentro dos parâmetros, foi um valor muito aceitável. Foi um valor que trouxe para eles um pouco de dignidade, uma reparação, que era algo que a gente pensava e tinha como estrutura. Então foi uma reparação concreta". Em dezembro, a Justiça determinou que o Estado de São Paulo e a Fundação Santa Casa de Franca (SP) paguem R$ 1 milhão pelos danos causados aos pacientes. O valor deve ser destinado ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos. Os alvos da ação também foram condenados a prestar assistência integral médica aos pacientes prejudicados, o que inclui todos os procedimentos que sejam necessários. Procurado pelo g1, o Grupo Santa Casa de Franca preferiu não comentar o assunto. "Sendo uma decisão de primeira instância, em respeito ao Judiciário e aos demais entes envolvidos, a instituição não fará considerações neste momento; aguardamos o trânsito em julgado." Benedito Donizete Lavezzo perdeu parte da visão do olho direito após cirurgia de catarata no AME de Taquaritinga, SP Valdinei Malaguti/EPTV Nova cirurgia de catarata após mutirão O oftalmologista André Messias revelou que dois dos pacientes ainda precisaram fazer uma nova cirurgia de catarata, agora no outro olho. O procedimento foi realizado no Hospital das Clínicas sem intercorrências. "Como eles tiveram um evento muito traumático na primeira cirurgia, podia ser que eles não quisessem mais ser operados do outro lado. Mas esses pacientes estavam muito confiantes, vieram, fizemos a cirurgia do olho contralateral e eles melhoraram". Os pacientes que passaram por transplante seguem em acompanhamento mensal no HC. A última cirurgia foi realizada em setembro de 2025. "O transplante deu a chance desses pacientes terem essa visão que eles têm hoje. Porque se a célula da córnea não funcionava mais, eles teriam evolução ruim, certamente. A superfície do olho uma hora ia ficar branca. Então, essa visão que eles têm, eles recuperaram. Ganharam de volta". Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região