Família de menino vítima de estupro coletivo em SP diz que levou 13 dias para conseguir atendimento psicológico

Família de uma das vítimas do estupro da ZL fala sobre o crime A família de um dos meninos vítimas de estupro coletivo na Zona Leste de São Paulo afirma qu...

Família de menino vítima de estupro coletivo em SP diz que levou 13 dias para conseguir atendimento psicológico
Família de menino vítima de estupro coletivo em SP diz que levou 13 dias para conseguir atendimento psicológico (Foto: Reprodução)

Família de uma das vítimas do estupro da ZL fala sobre o crime A família de um dos meninos vítimas de estupro coletivo na Zona Leste de São Paulo afirma que levou 13 dias para conseguir atendimento psicológico para a criança após o crime. Segundo a mãe, até agora, o único acolhimento recebido veio de um projeto social. “Não tive [apoio do poder público], só do projeto Icam, que foi a única pessoa que me acolheu até agora. Agora eu consegui, depois do ocorrido, depois de 13 dias, agendar para a semana que vem a psicóloga para ele no posto”, afirmou a mulher, que não será identificada para preservar a identidade da criança. Segundo a investigação, duas crianças, de 7 e 10 anos, foram abusadas por quatro adolescentes, entre 14 e 16 anos, e por Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos. Ainda de acordo com a polícia, Alessandro teria gravado o estupro e compartilhado os vídeos do crime. Ele foi preso no interior da Bahia e prestou depoimento em São Paulo. Os adolescentes estão na Fundação Casa. A mãe contou que os suspeitos conviviam com a família e costumavam brincar com as crianças na comunidade. “Eles eram de convivência. Eles iam chamar meu filho na porta de casa. Eles empinavam [pipa]. Eu mesma comprava pipa para eles. Tinha refrigerante... de vez em quando, até eu brincava com eles, jogando bola, as coisas, porque eu sou uma mãe participativa na vida das crianças”, disse. Segundo o relato, os meninos foram chamados para empinar pipa e levados para uma casa, onde os abusos aconteceram. “Os meninos estavam passando, chamaram eles para empinar pipa. Na hora que eles entraram, trancaram a porta e começaram os atos”, afirmou a mãe. Ela contou ainda que uma das crianças conseguiu fugir quando mandaram que lavasse louça. “Na hora em que ele foi lavar a louça, ele conseguiu abrir a porta e chamou o mais novo.” Após o crime, um dos meninos deixou a casa da família por medo das ameaças feitas pelos agressores. “Ele ficou com medo de voltar para minha casa porque ameaçaram de bater e tacar fogo na casa da minha mãe. Aí, até eu conseguir fazer a queixa, eu tive que arrumar um outro lugar primeiro”, relatou. A avó de uma das vítimas também criticou a divulgação dos vídeos do estupro. “Não gostei do jeito que o expuseram, odiei. Pessoal um manda para um, manda para outro, isso não é certo, não é justo. Isso foi pior ainda do que os moleques fizeram. O que eles fizeram já foi ruim, e a exposição foi pior”, afirmou. Mãe de menino estuprado (à esquerda) diz que o crime cometido por Alessandro Santos (à direita) e outros quatro adolescentes não sairá da cabeça do filho. Reprodução/TV Globo Para a família, a expectativa agora é tentar reconstruir a rotina da criança. “Meu filho é a minha vida. Dá os trabalhinhos dele, mas ele é meu”, disse a mãe. Segundo ela, o menino sonha em ser jogador de futebol, policial e lutador. Em nota, a prefeitura informou que a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania "tomou as medidas emergenciais para proteção integral das crianças assim que tomou conhecimento do caso. A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) realiza o acompanhamento contínuo das famílias envolvidas, em articulação com a rede de proteção. No caso da família acolhida, todos os encaminhamentos socioassistenciais e de saúde foram devidamente realizados.  A outra criança foi acolhida, juntamente com os dois irmãos, em serviço de acolhimento institucional, após identificação, pelo Conselho Tutelar, de situação de negligência familiar". Também por meio de um comunicado, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), disse que "desde o registro da ocorrência, foram adotadas as providências de polícia judiciária cabíveis. As vítimas e seus familiares receberam orientação por parte da autoridade policial e foram encaminhados para atendimento especializado. As investigações sobre o caso seguem em andamento pelo 63º Distrito Policial (Vila Jacuí), que segue empenhado em diligências, incluindo a coleta de depoimentos de testemunhas, para o completo esclarecimento dos fatos". Trauma Mãe de menino estuprado diz que filho não esquecerá crime A mãe falou também sobre o impacto do crime na vida do filho e da família. “Teve a Justiça. Não do jeito que eu queria, mas teve. Isso não vai sair da cabeça do meu filho. Não tão cedo. É uma coisa que, ainda mais, depois desses vídeos e tudo…” Os meninos foram estuprados por cinco pessoas — um homem de 21 anos e quatro adolescentes, de 14 a 16 anos. Segundo ela, o filho passou a ficar mais calado desde o crime. “Ele ficou mais quieto, né? Ele era um pouco mais falante dentro de casa. Ele fica um pouco mais quieto. Ele tem medo dos outros, lá onde a gente está, descobrir. Porque é chato comentar alguma coisa.” Apesar da dor, a mãe afirma que tenta seguir em frente. “Eu tô me sentindo aliviada pelas prisões, né? Porque eles vão pagar pelo que eles fizeram. E, agora, vou entregar nas mãos de Deus.” A mulher diz que convive com um sentimento constante de tristeza. “Eu me sinto mal. Porque, querendo ou não, eu deixei, dei liberdade para ele brincar com esses meninos. Mas iam chamar na porta. Peguei uma certa confiança, porque foram um tempo, né? Eles sempre estavam juntos. E eu não ter percebido isso, pra mim, é horrível", diz a mãe do menino. Ela contou como, segundo a investigação, o crime teve início. “Os meninos [abusadores] chamaram eles para empinar pipa. Na hora que eles entraram, trancaram a porta e começaram os atos", fala a mulher. Quem são os 5 suspeitos detidos Suspeito de estupro de crianças na ZL é transferido para prisão De acordo com a polícia, além do convite para empinar pipa, uma das crianças também foi chamada para tomar banho antes do crime — o que ajudou os investigadores a entenderem a dinâmica usada pelos suspeitos para atrair as vítimas. O crime só foi comunicado à polícia dois dias depois. A denúncia foi feita após a irmã de uma das vítimas ver um vídeo do estupro circulando nas redes sociais. A partir dessas imagens, os investigadores identificaram e detiveram os cinco envolvidos. O único adulto no grupo é Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos, apontado como responsável por gravar e divulgar os vídeos. Ele foi preso na cidade de Brejões, na Bahia, e levado para o 63º Distrito Policial (DP), na Vila Jacuí, na Zona Leste de São Paulo, responsável pela investigação. 'Insensibilidade', diz delegado do caso Alessandro, preso por suspeita de participar de estupro coletivo Divulgação/Polícia Civil de SP Segundo a polícia, Alessandro confessou participação no estupro e não demonstrou arrependimento. “Na verdade, o que a gente percebe é uma insensibilidade diante do sofrimento”, afirmou o delegado responsável pelo caso. Os outros quatro suspeitos são adolescentes. Todos foram apreendidos e também confessaram participação. Em depoimento, alegaram que se tratava de uma “brincadeira”, versão considerada inaceitável pelos investigadores. “A gente ouviu em algum momento a palavra ‘zoeira’, o que não é o que se aceita como uma zoeira entre crianças, entre adolescentes. Realmente foram atos de sadismo”, disse o delegado. Os adolescentes podem cumprir até três anos de internação por estupro de vulnerável. Já o adulto foi indiciado por estupro de vulnerável, corrupção de menores e compartilhamento de pornografia infantil. Adulto preso por estupro coletivo é transferido da BA a SP Dados estatísticos Manifestantes protestam contra estupro coletivo na Zona Leste de SP Dados da Secretaria da Segurança Pública mostram que a cidade de São Paulo registrou 640 casos de estupro de vulnerável apenas no primeiro trimestre de 2026 — o maior número para o período desde 2017. Isso representa, em média, sete vítimas por dia, ou um caso a cada três horas e vinte minutos. Para o advogado e especialista em direitos humanos Ariel de Castro Alves, o aumento está ligado a uma combinação de fatores, como a circulação de conteúdos violentos na internet, maior conscientização para denúncia e sensação de impunidade. Ele também destacou a falta de delegacias especializadas para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual em São Paulo.