Loja de vestidos de festa coloca manequins negros servindo brancos em vitrine em SP; especialistas veem racismo e MP abre representação

Manequins na vitrine da loja de vestidos de festa Arthur Caliman Paulo Alves/Arquivo pessoal Uma vitrine da loja de vestidos de festa Arthur Caliman, na Avenida...

Loja de vestidos de festa coloca manequins negros servindo brancos em vitrine em SP; especialistas veem racismo e MP abre representação
Loja de vestidos de festa coloca manequins negros servindo brancos em vitrine em SP; especialistas veem racismo e MP abre representação (Foto: Reprodução)


Manequins na vitrine da loja de vestidos de festa Arthur Caliman Paulo Alves/Arquivo pessoal Uma vitrine da loja de vestidos de festa Arthur Caliman, na Avenida Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, é alvo de uma representação protocolada no Ministério Público de São Paulo (MPSP) nesta terça-feira (3). A disposição dos manequins chamou a atenção por apresentar figuras negras vestidas com aventais, em posições que simulam servir ou atender manequins brancos que usam vestidos de festa. Na vitrine, não havia manequins negros usando vestidos de festa nem manequins brancos representados na função de servir ou atender outros. A representação está sendo analisada pela Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos – Inclusão Social. Procurada pela reportagem, a Arthur Caliman afirmou que repudia qualquer forma de racismo e discriminação. A loja disse que a escolha dos manequins varia e que, na vitrine registrada pela reportagem, a combinação buscava valorizar o contraste entre a cor dos bonecos e a das roupas. A empresa afirmou ainda que "jamais houve a intenção de transmitir qualquer mensagem de cunho racial". O advogado Hédio Silva Jr., fundador do Jusracial, que atua há mais de 28 anos na defesa da igualdade racial e dos direitos das religiões afro-brasileiras, criticou a composição da vitrine. "Olha, sem dúvida nenhuma, esta representação, que é mais do que representação, é uma projeção de um lugar de subalternidade da população negra, sempre servindo, subserviente, serviçal de brancos. Ela reproduz um núcleo essencial do racismo, que é a inferioridade, a condição sub-humana que é atribuída à população negra", afirmou. Para o advogado, a disposição dos manequins transmite uma mensagem que associa pessoas negras a posições de inferioridade social. "Com base nessa suposta inferioridade genética, são distribuídos lugares sociais. Uma mensagem que induz, incita, encoraja, faz apologia, rigorosamente induz as pessoas a praticarem a discriminação racial. Sem dúvida nenhuma, um crime racial na sua forma mais nua e crua", disse. Para Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude, o que a vitrine exibe não é um "erro de composição, e sim a materialização de uma hierarquia racial que estrutura a sociedade brasileira desde a escravidão. Corpos brancos aparecem em vestidos de festa, no lugar da celebração, do consumo e do prestígio. Corpos negros aparecem de avental, no lugar da servidão. É a cena colonial reencenada em pleno centro comercial, como se fosse natural." "Uma vitrine nunca é neutra, existe uma literatura antiga sobre isso desde a semiótica até os profissionais de visual merchandising, e aqui ela está definindo quem é o sujeito do luxo e quem é seu cliente imaginado. Quando uma marca renomada faz essa escolha, ela mobiliza poder simbólico, o poder de dizer, sem precisar dizer em palavras, quem pertence a cada lugar. É isso que chamamos de privilégio simbólico da branquitude: a brancura apresentada como norma, como beleza, como o padrão de humanidade que merece ser servido", afirma. "Tem uma intelectual, Grada Kilomba, que nos ajuda a entender esse mecanismo quando mostra que o racismo cotidiano é memória colonial que segue sendo atualizada no presente. A vitrine encena exatamente isso: a branquitude no centro, a negritude como apoio e cenário. Por isso, acreditamos que em 2027 já não basta retirar os manequins ou publicar uma nota de desculpas. É preciso que a marca reconheça o racismo, e assuma compromissos concretos de mudança. Acompanhamos com atenção a representação protocolada no MPSP e esperamos que o caso seja tratado com a seriedade que exige." Vitrine da loja Arthur Caliman Paulo Alves/Arquivo pessoal O que diz a loja Em nota, a Arthur Caliman afirmou que a escolha dos manequins das vitrines varia e que, na maioria das vezes, eles são selecionados para valorizar o contraste com a cor das roupas expostas. Segundo a empresa, foi o que ocorreu na vitrine registrada pela reportagem, que combinou manequins pretos com trajes brancos e um manequim branco com vestido azul-escuro. A loja também afirmou que a vitrine anterior era composta inteiramente por manequins pretos com vestidos claros. "Jamais houve a intenção de transmitir qualquer mensagem de cunho racial. Lamentamos o desconforto causado e, assim que recebemos o contato da reportagem, substituímos o manequim da vitrine", declarou. Quem é Hédio Silva Jr. Hédio Silva Jr. é mestre em Direito Processual Penal e doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi coordenador da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB-SP, conselheiro seccional da entidade e presidiu, por dois mandatos, as comissões de Direitos Humanos e de Liberdade Religiosa. Militante do Movimento Negro há 40 anos, é autor de livros, teses e artigos sobre racismo, liberdade de crença, ações afirmativas e patrimônio cultural afro-brasileiro. Também atuou em casos no Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles a defesa da constitucionalidade do abate religioso de animais. Vitrine da loja Arthur Caliman com vitrine apontada como racista Paulo Alves/arquivo pessoal