Preso por feminicídio, tenente‑coronel é acusado em nova denúncia de assédio sexual por mandar flores e querer beijar soldado da PM

Tenente-coronel Geraldo Neto aparece em foto (à esquerda) feita a partir da gravação de câmera de segurança de prédio de soldado que o acusa de assédio s...

Preso por feminicídio, tenente‑coronel é acusado em nova denúncia de assédio sexual por mandar flores e querer beijar soldado da PM
Preso por feminicídio, tenente‑coronel é acusado em nova denúncia de assédio sexual por mandar flores e querer beijar soldado da PM (Foto: Reprodução)

Tenente-coronel Geraldo Neto aparece em foto (à esquerda) feita a partir da gravação de câmera de segurança de prédio de soldado que o acusa de assédio sexual. Oficial aparece em outra imagem (à esquerda) dando entrevista a jornalistas Reprodução Uma soldado de 32 anos da Polícia Militar (PM) de São Paulo acusa o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos — preso por suspeita de matar a esposa Gisele Alves em fevereiro — de assédio sexual e moral, ameaça, perseguição, pressão e coação dentro e fora da corporação. A nova denúncia foi formalizada pelo advogado da policial à Corregedoria da PM, que apura o caso. Segundo o relato, o oficial descobriu o endereço da soldado e foi até lá para entregar um buquê de flores, além de enviar mensagens por WhatsApp dizendo que “queria beijar sua boca”. Uma câmera de segurança do condomínio registrou Neto, uniformizado, em uma das vezes em que esteve na portaria do prédio. O g1 teve acesso à imagem, que mostra o oficial em frente ao edifício da soldado. A foto faz parte da denúncia entregue em abril à Corregedoria pelo advogado da policial, Thiago Lacerda. Ainda segundo a denúncia, o oficial passou a elogiá-la com frequência e a convidá-la para ir à sala dele. Em mensagens, dizia que “a queria para ele”, sugeria um relacionamento “em off” e expressava desejo de beijá-la. A policial afirma que recusou todas as investidas e reforça que nunca manteve relação com o coronel. Ainda assim, diz que era alvo de comentários nos corredores da corporação, justamente pela insistência do oficial. Um dos episódios ocorreu em 30 de setembro de 2025. Neto foi até o prédio da soldado, sem o uniforme da PM, com boné e óculos escuros, levando flores. Ao reconhecê-lo, ela voltou para o apartamento sem atendê-lo. Ele então passou a gritar no portão e, depois, enviou mensagens informando que havia deixado o buquê na portaria. Em outra ocasião, voltou ao local durante o expediente, fardado e em viatura oficial. A câmera do condomínio registrou essa visita. O advogado da soldado pede a abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar os crimes de “descumprimento de missão, assédio sexual, assédio moral, ameaça e fraude processual”. Procurada pelo g1, a Polícia Militar informou que “os fatos narrados foram registrados na Corregedoria PM e se encontram em apuração”. Assédio foi com coronel casado Justiça determina que morte da PM Gisele Alves seja investigado como feminicídio Segundo a acusação, as investidas ocorreram quando Neto ainda era casado com a soldado Gisele Alves, também policial militar e da mesma idade da denunciante. Gisele foi encontrada baleada com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, região central da capital. Ela morreu no hospital após ser socorrida. De acordo com o Ministério Público (MP), o tenente-coronel matou a esposa por não aceitar o pedido de separação feito por ela. A investigação aponta que Gisele decidiu se divorciar após descobrir traições do marido com outras mulheres. A soldado que denuncia o assédio afirma, porém, que nunca teve qualquer relacionamento com o oficial, apesar de comentários na corporação que a apontavam como suposta amante dele. Segundo a policial, ela sempre deixou claro ao superior que não queria se envolver com ele. A defesa do coronel, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, informou à reportagem que “não tem ciência” da nova denúncia. Em outras ocasiões, já declarou que Neto é inocente e sustenta que a esposa se suicidou após ele manifestar intenção de se separar. Assédio sexual e moral O tenente-coronel Geraldo Neto e a esposa, a PM Gisele Alves Santana. Reprodução/Redes Sociais De acordo com a denúncia de oito páginas, Neto perseguiu a soldado entre 26 de junho de 2025 e 4 de março de 2026 — ou seja, até duas semanas após a morte de Gisele, que deixou uma filha de 7 anos. Na época, o tenente-coronel comandava o 49º Batalhão da Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), em Pirituba, Zona Norte, onde a policial trabalhava. Segundo o documento, ele insistiu diversas vezes em iniciar um relacionamento amoroso com a subordinada. Ela afirma que recusou todas as investidas. Mesmo assim, ele teria insistido com mensagens, telefonemas e abordagens presenciais, tanto dentro do batalhão quanto fora dele. Os detalhes que transformaram o tenente-coronel em réu pelo feminicídio da PM Gisele Alves Pressão hierárquica e medo PM Gisele foi baleada e morta pelo marido, tenente-coronel Neto, segundo o MP. Oficial está detido há mais de um mês no Presídio Militar Romão Gomes (ao centro). Reprodução A denúncia afirma que o coronel também utilizou sua posição para pressionar a policial. Ele teria oferecido a ela um cargo administrativo equivalente ao de secretária e, antes mesmo de resposta, já teria comunicado a colegas que ela assumiria a função. Após a recusa, teria ameaçado transferi-la compulsoriamente — o que gerou medo. A policial afirma que passou a evitar escalas em que ele estivesse. Segundo o advogado Thiago Lacerda, o comportamento do oficial já era conhecido: “Que fique claro e consignado que este advogado já sabia dessas histórias aqui narradas”. Ele afirma ainda que a soldado só formalizou a denúncia após a prisão de Neto porque "sempre teve medo" do oficial.” Ele está detido preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte. Assédio após morte da esposa Tenente-coronel é preso; provas da polícia sobre a morte da PM Gisele Alves vão contra versão apresentada por ele Segundo a denúncia, Neto voltou a procurar a policial após a morte da esposa, tentando se explicar. Ela recusou o contato. O documento afirma ainda que o nome da soldado passou a ser associado a um suposto relacionamento extraconjugal, o que aumentou o constrangimento. Geraldo Neto é réu na Justiça comum por feminicídio e fraude processual. A Polícia Civil apontou um comportamento controlador do oficial, que não deixava a esposa usar perfume, maquiagem ou salto. Segundo o MP, ele teria matado Gisele e tentado simular um suicídio. O Ministério Público também questiona a aposentadoria concedida ao oficial, que, mesmo preso, continua recebendo salário — situação que pode ser revertida caso ele seja expulso da corporação. O tenente-coronel também responde a um Conselho de Justificação da PM, que pode resultar na perda do posto e da patente. O julgamento envolve a acusação de uso da função para tentar influenciar policiais que atenderam a ocorrência da morte da esposa. Os agentes gravaram com câmeras corporais o comportamento do oficial. As audiências estão marcadas por videoconferência para os dias 11 e 14 de maio.