Professores pré-vestibular contam como lidam com ansiedade de alunos, telas e redes sociais: 'Exige muito mais de nós'

Professores de pré-vestibular apostam no fator humano e empatia em Ribeirão Preto, SP Já passou do meio-dia e nada de o sinal bater. A fome começa a roubar ...

Professores pré-vestibular contam como lidam com ansiedade de alunos, telas e redes sociais: 'Exige muito mais de nós'
Professores pré-vestibular contam como lidam com ansiedade de alunos, telas e redes sociais: 'Exige muito mais de nós' (Foto: Reprodução)

Professores de pré-vestibular apostam no fator humano e empatia em Ribeirão Preto, SP Já passou do meio-dia e nada de o sinal bater. A fome começa a roubar o foco e a vontade de deixar a sala de aula do curso pré-vestibular aumenta. Só que aí, a professora Jerusa Nazar, Jejequinha para os alunos, chega cantando e, de repente, muda todo o clima do lugar. É hora da aula de química e, entre uma camada e outra do diagrama de Pauling, Jerusa ganha a atenção de todo mundo do terceiro colegial na unidade Médio e Pré-Vestibular do Liceu Albert Sabin, em Ribeirão Preto (SP). Para ela, mostrar o lado mais sincero de si é uma forma de resistir às distrações do mundo virtual. Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "O aluno, hoje, exige muito mais de nós, professores. A gente tem de tentar ganhar a atenção dele e tentar fazê-lo desligar de tudo que está em volta. Para isso, acho que a gente tem de lidar com muita verdade. Eu acredito no olho no olho. Em um mundo onde a gente não enxerga mais o ser humano, acredito em você olhar aquele aluno como cidadão, como ser humano, com sentimento". LEIA TAMBÉM: Estudante gabarita questões de matemática no Enem e conquista vaga na USP: 'Não me cansava estudando' Saiba como estudante do interior de SP gabaritou questões de matemática no Enem 2025 Para o professor de história Marcos Roberto de Castro Silva, o Marcão, também do Liceu, a principal ferramenta para lutar contra a falta de concentração dos alunos é a preparação de uma boa aula. "O professor tem de se opor à desmotivação, ele deve lutar contra o desinteresse. E o melhor instrumento de luta que ele tem é a aula que ele proporciona ao aluno. Cabe ao professor preparar uma boa aula, não apenas para prender a atenção do aluno, mas para que, através dessa aula, possa ajudar, não apenas com a informação, mas com a formação do próprio aluno." O docente, que passou a maior parte dos últimos 33 anos com turmas de pré-vestibular, identifica que a habilidade tem se perdido no decorrer dos anos em função das redes sociais, agravadas pelos efeitos da pandemia. Cabe ao professor entender essa nova realidade, o novo cenário que se vislumbra. Justamente para que ele possa encontrar, através da aula, uma maneira de avançar esses problemas, que são geracionais Marcos Roberto de Castro Silva, professor de história do Ensino Médio e Pré-Vestibular Murilo Corazza/g1 As mudanças da geração Ao g1, os professores de pré-vestibular que estão nas salas de aulas há mais de 20 anos dizem que entendem que, a cada ano, precisam se atualizar para acompanhar as mudanças da geração. Tiago Biajoni Veloso de Almeida, professor de Física na Escola SEB AZ Lafaiete, na região central de Ribeirão Preto, afirma que para lidar com a nova geração aposta na empatia. "Minha linguagem com eles não é porque eu tento saber a música que eles gostam, porque acho que se eu tentar correr atrás disso, nunca vou conseguir alcançar. Mas é tentar pegar esse lado humano, que eles são seres humanos como eu, quando era jovem." Para ele, parte das mudanças tem a ver com as redes sociais e também com a ansiedade das turmas. "É uma geração que, até mesmo por conta da velocidade com que as coisas estão na internet, as redes sociais, a questão da comparação que vive no mundo de hoje, fica muito ligada nisso. Mas acho que nosso papel é mostrar que o mundo não é apenas isso." Jerusa Nazar também percebe que o aluno de pré-vestibular tem se importado com uma vitrine de conquistar uma vaga na universidade, sem estar muito preocupado com o bastidor. "Ele [aluno] romantiza até a quantidade de horas de estudo e romantiza a exaustão. Acha que estudar de dez a 12 horas e conta isso para o colega, que vai levar em algum lugar. E, na verdade, esquece, às vezes, de pensar na consistência". Jerusa Nazar, professora de Química do Ensino Médio e Pré-Vestibular Murilo Corazza/g1 Para combater estes pontos, os professores dizem que passaram a mostrar as próprias falhas, que os fizeram mais fortes. "O que eles pensam? 'Pô, professor de física parece que nasceu sabendo, é muito inteligente'. E não é. Quero mostrar pra eles que sou que nem eles. Eu fui um aluno que repetiu de ano, então tento mostrar 'poxa, eu consegui, é possível'", diz. Outra saída é mostrar que a disciplina importa além do vestibular. E no caso das aulas de história, a construção do senso crítico do aluno é uma tarefa desafiadora, segundo Marcão. "No meu caso, em especial, não apenas a explicação do passado como o passado, mas o como esse passado tem com os dias de hoje. Estabelecer essa analogia entre passado e presente também, sem sombra de dúvidas, é uma estratégia de fundamental importância no momento da tarefa." Profissão que é vocação Administrar a sala de aula e o emocional dos alunos não é tarefa simples e os professores das instituições de ensino ouvidas pelo g1 afirmam que dar aula é uma habilidade que vai além dos anos de estudo. "É muito natural. Sempre penso que não tenho de só passar a informação, sou muito colo do meu aluno. Eu quero acolher", diz Jerusa Nazar. Segundo ela, sentir que o aluno entendeu o conteúdo passado em sala de aula é o que a motiva. "Meu aluno sabe que é muito importante para mim eu perceber que ele entendeu minha matéria, eu perceber o brilho no olhar na hora que eu entro. Trabalho muito para isso. Porque, pela quantidade de horas que a gente passa dentro da sala de aula, tem de ser prazeroso para a gente também." Para Tiago, a docência é algo vocacional e ele acredita que lidar com o ensino exige preparação para, por exemplo, responder a mesma dúvida várias vezes. "Ajudar aluno que é bom, no sentido de conhecimento, que pega as coisas fáceis, é gostoso. Mas o grande trabalho do professor é pegar na mão daquele que não consegue. Esse que precisa do nosso trabalho". Tiago Biajoni Veloso de Almeida, professor de Física do Ensino Médio e Pré-Vestibular Murilo Corazza/g1 Frederico Braga, professor de Matemática do SEB AZ Lafeiete, também entende que a carreira não é para qualquer um. "Acho que é um dom, tinha de ser professor. Faz parte do professor de cursinho vestir uma máscara social. Eu sou um cara super tímido, mas na aula, não. Saio da escola e tiro minha máscara. Quando eu chego, coloco. Aquilo [sala de aula] é um palco, aquilo é um tablado, aquilo é um teatro." Com quase 30 anos em salas de aula, Frederico acredita que todos os professores escolhem a carreira influenciados por algum professor que tiveram aula. Ele mesmo foi influenciado por uma professora de Biologia da época em que prestou vestibular. "Dava uma aula que era um show. Você olhava e pensava 'ela é completa'". Frederico Braga, professor de Matemática do Ensino Médio e Pré-Vestibular Murilo Corazza/g1 Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região